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Itàn de Esú

Exú é o mais sutil e o mais astuto de todos os orixás. Ele aproveita-se de suas qualidades para
provocar mal-entendidos e discussões entre pessoas ou para preparar-lhes
mal-entendidos e discussões entre pessoas ou para preparar-lhes armadilhas. Ele
pode fazer coisas extraordinárias, como por exemplo, carregar numa peneira, o
óleo que comprou no mercado, sem que este óleo se derrame desse recipiente! Exú
pode ter matado um pássaro ontem, com uma pedra que jogou hoje! Se zanga-se,
ele sapateia, na floresta, e esta pedra põe-se a sangrar! Sua cabeça é pontuda
e afiada como a lâmina de uma faca. Ele nada pode transportar sobre ela.
Exú
pode também ser muito malvado, se as pessoas se esquecerem de homenagea-lo. É
necessário, pois, fazer sempre oferendas a Exú antes de qualquer orixá. A
segunda-feira é o dia da semana que lhe
é consagrado. É bom fazer-lhe oferendas, neste dia, de farofa, azeite de dendê,
cachaça e um galo preto.
Certa
vez, dois amigo de infância, que jamais discutiram, esqueceram-se, na
segunda-feira, de fazer-lhes as oferendas devidas. Foram para o campo
trabalhar, cada um na sua roça. As terras eram vizinhas, separadas apenas por
um estreito canteiro. Exú, zangado pela negligência dos dois amigos, decidiu
preparar-lhes um golpe a sua maneira. Ele colocou sobre a sua cabeça um boné
pontudo que era branco do lado direito e vermelho do lado esquerdo. Seguiu
depois, o canteiro, chegando à altura dos dois trabalhadores amigos e, muito
educadamente, cumprimentou-os:
“Bom
trabalho, meus amigos!”
Estes,
gentilmente, responderam-lhes:
“Bom
passeio, nobre estrangeiro!”
Assim
que Exú afastou-se, os homem que trabalhava no campo à direita, falou para o
companheiro:
“Quem
pode ser este personagem de boné branco?
“Seu
chapéu era vermelho, respondeu o homem do campo à esquerda.”
“Não,
ele era branco, de um branco de alabastro, o mais belo branco que existe!”
“Ele
era vermelho, um vermelho escarlate de fulgor insustentável!”
“Ele
era branco, tratas-me de mentiroso?”
“Ele
era vermelho, ou pensas que sou cego?”
Cada
um dos amigos tinha razão e estavam furiosos da desconfiança do outro.
Irritados, eles agarraram-se e começara
a bater-se até matarem-se a golpes de enxada. Exú estava vingado.
Isto
não teria acontecido, se as oferendas à Exú não houvessem sido negligenciadas.
Pois Exú pode ser o mais benevolente e generoso dos orixás se é tratado com
consideração e generosidade. Há uma maneira hábil de obter um favor de Exú. É
preparar-lhe um golpe mais astuto que aqueles que ele mesmo prepara.
Como Èsù tornou-se Òsijè-Ebó.
Essa história
revela o nascimento do 17o. Odù, como e de onde nasceu Òsetùwá, em decorrência,
veremos a analise através de como Èsù se tornou Èsù Òsijè-Ebó, o transportador
e encarregado de encaminhar as oferendas entre a terra e o òrun.
Quem deveria
consultar o porta-voz-principal-do-culto-de-Ifá; a nuvem esta pendurada por
cima da terra...
Bábálàwó dos tempos imemoriais; Os
"siris" estão no rio; a marca do dedo requer Yèréòsùn (pó sagrado de
Ifá).
Estes foram os Bábálàwó que jogaram
Ifá para os quatrocentos Irúnmolè, senhores do lado direito, e jogaram Ifá para
os duzentos malè, senhores do lado esquerdo. E jogaram Ifá para Òsun, que tem
uma coroa toda trabalhada de contas, no dia em que ele (Òsetùwá) veio a ser o
décimo sétimo dos Irúnmolè que vieram ao mundo, quando Òlódumàrè enviou os
òrìsà, os dezesseis, ao mundo, para que viessem criar e estabelecer a terra. E
vieram verdadeiramente nessa época. As coisas que Òlódumàrè lhes ensinou nos
espaços do òrun constituíram nos pilares de fundação que sustentam a terra para
a existência de todos os seres humanos e de todos os ebora. Òlódumàrè lhes ensinou
que quando alcançassem a terra, deveriam abrir uma clareira na floresta,
consagrando-a de Orò, o Igbó Orò. Deveriam abrir uma clareira na floresta,
consagrando-a a Eégún, o Igbó Eégún, que seria chamado Igbó Òpá. Disse que
deveriam abrir uma clareira na floresta consagrando-a a Odù Ifá, o Igbó Odù,
onde iriam consultar o oráculo a respeito das pessoas.
Disse ele que deveriam abrir um
caminho para os Òrìsà e chamar esse lugar de Igbó Òrìsà, floresta para adorar
os òrìsà. Òlódumàrè lhes ensinou a maneira como deveriam resolver os problemas
de fundação (assentamento) e adoração dos ojóbo (lugares de adoração) e como
fariam as oferendas para que não houvesse morte prematura, nem esterilidade,
nem infecundidade, que não houvesse perda, nem vida paupérrima, não houvesse
nada de tudo isso sobre a terra. Para que as doenças sem razão não lhes
sobrevivessem, que nenhuma maldição caísse sobre eles, que a destruição e a
desgraça não se abatessem sobre eles. Òlódumàrè ensinou aos dezesseis òrìsà o
que eles deveriam realizar para evitar todas as coisas. Ele os delegou e enviou
à terra, a fim de executarem tudo isso. Quando vieram ao òde àiyé, a terra,
fundaram fielmente na floresta o lugar de adoração de Orò, o Igbá Orò. Fundaram
na floresta o lugar de adoração de Eégún. Fundaram na floresta o lugar de
adoração de Ifá que chamamos Igbódù. Também abriram um caminho para os òrìsà,
que chamamos igbóòòsa.
Executaram todos esses programas
visando a ordem.
Se alguém estava doente, ele ia
consultar Ifá ao pé de Òrúnmìlá. Se acontecia que Eégún poderia salvá-lo,
dir-lho-iam. Seria conduzido ao lugar de adoração na floresta de Eégún ao
Igbó-Igbàlè, para que ele fizesse uma oferenda para Egúngún. Talvez que um de
seus ancestrais devesse ser invocado como Eégún, para que o adorasse, a fim de
que esse Eégún o protegesse. Se havia uma mulher estéril, Ifá seria consultado,
a respeito dela, a fim de que Orúnmìlà pudesse indicar-lhe a decocção de Òsun,
que ela deveria tomar. Se havia alguém que estava levando uma vida de miséria,
Orúnmìlà consultaria Ifá, a respeito dele. Poderia ser que Orò estivesse
associado à sua própria entidade criadora. Orúnmìlà diria a essa pessoa que é a
Orò que ela devia adorar. E ela seria conduzida à floresta de Orò.
Eles seguiram essa prática durante muito
tempo.
Enquanto realizavam as diversas
oferendas, eles não chamavam Òsun. Cada vez que iam a floresta de Eégún, ou à
floresta de Orò, ou à floresta de Ifá, ou à floresta de Òòsà, a seu retorno, os
animais que eles tinham abatido, fossem cabras, fossem carneiros, fossem
ovelhas, fossem aves, entregavam-nos a Òsun para que ela os cozinhasse.
Preveniram-na que quando ela acabasse
de preparar os alimentos, não devia comer nenhum pouco, porque deviam ser
levados aos Malè, lá onde as oferendas são feitas.
Òsun começou a usar o poder das mães
ancestrais - àse Iyá-mi - e a estender sobre tudo o que ela fazia esse poder de
Iyá-mi-Àjé, que tornava tudo inútil.
Se se predissesse a alguém que ele ou
ela não fosse morrer, essa pessoa não deixava de morrer. Se fosse proclamado
que uma pessoa não sobreviveria, a pessoa sobreviveria. Se se previsse que uma
pessoa daria à luz um filho, a pessoa tornava-se estéril. Um doente a quem se
dissesse que ele ficaria curado não seria jamais aliviado de sua doença.
Essas coisas ultrapassavam seu
entendimento, porque o poder de Olódumàre jamais tinha falhado. Tudo que
Olódumàre lhes havia ensinado eles o aplicava, mas nada dava resultado. Que era
preciso fazer ?
Quando se congregaram numa reunião,
Orúnmìlà sugeriu que, já que eles eram incapazes de compreender o que se estava
passando por seus próprios conhecimentos, não havia outra solução senão
consultar Ifá novamente.
Em consequência, Orúnmìlà trouxe seu
instrumento adivinhatório, depois consultou Ifá. Contemplou longamente a figura
do Odù que apareceu e chamou esse Odù pelo nome de Òsetùwá.
Ele olhou em todos os sentidos. A
partir do resultado definitivo de sua leitura, Orúnmìlà transmitiu a resposta a
todos os outros Odù-àgbà. Estavam todos reunidos e concordaram que não havia
outra solução para todos eles, os òrìsàs-irúnmàlè, senão encontrar um homem
sábio e instruído que pudesse ser enviado a Olódumàre, para que mandasse a
solução do problema e o tipo de trabalho que devia ser feito para o
restabelecimento da ordem, a fim de que as coisas voltassem a normalizar-se, e
nada mais interferisse em seus trabalhos.
Ele, Orúnmìlà, deveria ir até a
Olódumàrè. Orúnmìlà ergueu-se. Serviu-se de seus conhecimentos para utilizar a
pimenta, serviu-se de sua sabedoria para tomar nozes de obi, despregou seu òdùn
(tecido de ráfia) e o prendeu no seu ombro, puxou seu cajado do solo, um forte
redemoinho o levou, e ele partiu até os vastos espaços do outro mundo para
encontrar Olódumàrè. Foi lá que Orúnmìlà reencontrou Èsù Òdàrà. Èsù já estava com
Olódumàrè. Èsù fazia sua narração a Olódùmarè. Explicava que aquilo que estava
estragando o trabalho deles na terra era o fato de eles não terem convidado a
pessoa que constitui a décima sétima entre eles. Por essa razão, ela estragava
tudo, Olódumàrè compreendeu.
Assim que Orúnmìlà chegou, apresentou
seus agravos a Olódumàrè. Então Olódumàrè lhe disse que deveria ir e chamar a
décima sétima pessoa entre eles e levá-la a participar de todos os sacrifícios
a serem oferecidos. Porque, além disso, não havia nenhum outro conhecimento que
Ele lhes pudesse ensinar senão as coisas que Ele já lhes havia dito.
Quando Orúnmìlà voltou à terra, reuniu
todos os òrìsà e lhes transmitiu o resultado de sua viagem.
Chamaram Òsun e lhe disseram que ela
deveria segui-los por todos os lugares onde deveriam oferecer sacrifícios.
Mesmo na floresta de Eégún. Òsun recusou-se: ela jamais iria com eles.
Começaram a suplicar a Òsun e ficaram prostrados um longo tempo. Todos
começaram a homenageá-la e a reverênciá-la. Òsun os maltratava e abusava deles.
Ela maltratava Òrìsànlá, maltratava Ògún, maltratava Orúnmìlà, maltratava
Òsányín, maltratava Orànje, ela continuava a maltratar todo mundo. Era o sétimo
dia, quando Òsun se apaziguou. Então eles disseram que viesse. Ela replicou que
jamais iria, disse, entretanto, que era possível fazer uma outra coisa já que
todos estavam fartos dessa história. Disse que se tratava da criança que levava
no seu ventre. Somente se eles soubessem como fazer para que ela desse à luz
uma criança do sexo masculino, isso significaria que ela permitiria então que
ele a substituísse e fosse com eles. Se ela desse à luz uma criança do sexo
feminino, podiam estar certos que esta questão não se apagaria em sua mente.
Ficariam aí, pedaços, pedaços, pedaços. E eles deveriam saber com certeza que
esta terra pereceria; deveriam criar uma nova.3 Mas se ela desse a luz a um
filho-homem, isso queria dizer que, evidentemente, o próprio Olórun os tinha
ajudado. Assim apelou-se para Òrìsànlá e para todos os outros òrìsà para saber
o que deveriam fazer para que a criança fosse do sexo masculino. Disseram que
não havia outra solução a não ser que todos utilizassem o poder - àse - que
Olódumàrè tinha dado a cada um deles; cada dia repetidamente deveriam vir, para
que a criança nascesse do sexo masculino, Todos os dias iam colocar seu àse -
seu poder - sobre a cabeça de Òsun, dizendo o que segue. "Você
Òsun ! Homem ele deverá nascer, a criança que você traz em si!" Todos
respondiam "assim seja", dizendo "tó!" acima de sua cabeça... Assim fizeram todos os dias, até que chegou o dia
do parto de Òsun. Ela lavou a criança. Disseram que ela deveria permitir-lhes
vê-la. Ela respondeu "não antes de nove dias". Quando chegou o nono
dia, ela os convocou a todos. Esse era o dia da cerimônia do nome, da qual se
originaram todas as cerimônias de dar o nome. Mostrou-lhes a criança, e a pôs
nas mãos de Òrìsà. Quando Òrìsànlá olhou atentamente a criança e viu que era um
menino, gritou: "Músò"...! (hurra...!). Todos os outros repetiram
"Músò".....! Cada um carregou a criança, depois o abençoaram.
Disseram "somos gratos por esta criança ser um menino". Disseram
"que tipo de nome lhe daremos". Òrìsà disse: "vocês todos sabem
muito bem que cada dia abençoamos sua mãe com nosso poder para que ela pudesse
dar à luz uma criança do sexo masculino, e essa criança deveria justamente
chamar-se À-S-E-T-Ù-W-Á (o poder trouxe ela a nós)" Disseram: "acaso
você não sabe que foi o poder do àse, que colocamos nela, que forçou essa
criança a vir ao mundo, mesmo se antes ela não queria vir à terra sob a forma
de uma criança do sexo masculino? Foi nosso poder que a trouxe à terra".
Eis por que chamaram a criança de Àsetùwà. Quando chegou o tempo, Orúnmìlà
consultou o oráculo Ifá acerca da criança, porque todos devem conhecer sua
origem e destino, colheram o instrumento de Ifá para consultá-lo. Eles o
manipularam e o adoraram. Era chegado o momento de consultar Ifá a respeito
dele, para saberem qual era seu Odù, para que o pudessem iniciar no culto de
Ifá. Levaram-no à floresta de Ifá, que chamamos Igbódù, onde Ifá revelaria que
Òsè e Òtùá eram seu Odù. Este foi o resultado que ele deu a respeito da
criança. Orúnmìlà disse: "a criança que Òsè e Òtùá fizeram nascer, que
antes chamamos de Àsetùwá", disse, "chamemo-la de Òsètùá". Foi
por isso que chamaram a criança com o nome do Odù de Ifá que lhe deu
nascimento, Òsètùá. Àsetùá era o nome que ele trazia anteriormente. Assim, a
criança participou do grupo dos outros Odù, ao ponto de ir com eles a todos os
lugares onde se faziam oferendas na terra. Foi assim que todas as coisas que
Olódùmàrè lhes tinha ensinado deixaram de ser corrompidas. Cada vez que
proclamavam que as pessoas não morreriam, elas realmente sobreviviam e não
morriam. Se diziam que as pessoas seriam ricas, elas tornavam-se realmente
ricas. Se diziam que a mulher estéril conceberia, ela realmente dava à luz. A
própria Òsun deu a essa criança um nome nesse dia. Disse ela: "Osó a gerou
(significando que a criança era filho do poder mágico), porque ela mesma era uma
ajé e a criança que ela gerou é um filho homem. Disse ela: "Akin
Osò", (Akin Osò: poderoso mago; homem bravo dotado de um grande poder
sobrenatural) eis o que a criança será ! É por isso que eles chamaram Òsetùá de
Akin Osò, entre todos os Odù Ifá e entre os dezesseis òrìsà mais anciãos.
Depois eles disseram que em qualquer lugar onde os maiores se reunissem, seria
compulsório que a criança fosse um deles. Se não pudessem encontrar o décimo
sétimo membro, não poderiam chegar a nenhuma decisão, e se dessem um conselho,
não poderiam ratifica-lo. Finalmente, aconteceu! Sobreveio uma seca na terra.
Tudo estava seco! Não havia nem orvalho! Fazia três anos que tinha chovido pela
última vez. O mundo entrou em decadência. Foi então que eles voltaram a
consultar Ifá, Ifà àjàlàiyé. (aquele que administra a terra) Quando Orúnmìlà
consultou Ifá àjàlàiyé, disse que deveriam fazer uma oferenda, um sacrifício, e
preparar a oferenda de maneira que chegasse a Olódùmàrè, para que Olódùmàrè
pudesse ter piedade da terra, e assim não virasse as costas à terra e se
ocupasse dela para eles. Porque Olódùmàrè não se ocupava mais da terra. Se isso
continuasse, a destruição era inevitável, era iminente. Somente se pudessem
fazer a oferenda, Olódumàrè teria sempre misericórdia deles. Ele se lembraria
deles e zelaria pelo mundo. Foi assim que prepararam a oferenda. Eles
colocaram, uma cabra, uma ovelha, um cachorro e uma galinha, um pombo, uma
preá, um peixe, um ser humano e um touro selvagem, um pássaro da floresta, um
pássaro da savana, um animal doméstico. Todas essas oferendas, e ainda
dezesseis pequenas quartinhas cheias de azeite de dendê que eles juntaram nesse
dia. E ovos de galinha, e dezesseis pedaços de pano branco puro. Prepararam as
oferendas apropriadas usando folhas de Ifá, que toda oferenda deve conter.
Fizeram um grande carrego com todas as coisas. Disseram então, que o próprio
Èjì-Ogbè deveria levar essa oferenda a Olódumàrè. Ele levou a oferenda até as
portas do òrun, mas não, lhe foram abertas. Èjì-Ogbè voltou à terra. No segundo
dia Òyèkú-Méji a carregou, ele voltou. Não lhe abriram as portas. Ìwòrí-Méji
levou a oferenda, assim fizeram Òdi-Méji; Ìrosùn-Méji; Òwórin-Méji; Òbàrà-Méji;
Òkànràn-Méji; Ogúndá-Méji; Òsá-Méji; Ìká-Méji; Òtúrúpòn-Méji; Òtúá-Méji;
Ìrètè-Méji; Òsè-Méji; Òfún-Méji. Mas não puderam passar, Olórun não abria as
portas. Assim decidiram que o décimo sétimo entre eles deveria ir e
experimentar o seu poder, antes que tivessem que reconhecer que não tinham mais
nenhum poder.
Foi assim que Òsetùá foi visitar
certos Babaláwo, para que eles consultassem o oráculo para ele. Esses Babaláwo
traziam os nomes de Vendedor-de-azeite-de-dendê e Comprador-de-azeite-de-dendê.
Ambos esfregaram seus dedos com pedaços de cabaça. Jogaram Ifá para Akin Osò, o
filho de Enìnàre (aquela que foi colocada na senda do bem) no dia em que ele
conseguiu levar a oferenda ao poderoso òrun. Disseram que ele deveria fazer uma
oferenda; disseram, quando ele acabasse de fazer a oferenda, disseram, no lugar
a respeito do qual ele estava consultando Ifá, disseram, ali, ele seria coberto
de honras, disseram, sucederá que a posição que ele ali alcançasse, disseram,
essa posição seria para sempre e não desapareceria jamais. Disseram, as honras
que ele ali receberia, disseram, o respeito, seriam intermináveis. Disseram:
"Você verá uma anciã no seu caminho", disseram, "faça-lhe o
bem". Assim, quando Òsetùá acabou de preparar a oferenda, seis pombos,
seis galinhas com seis centavos e quando estava em seu caminho, ele encontrou uma
anciã. Ele carregava a oferenda no caminho que levaria a Èsù, quando encontrou
essa anciã na sua rota. Essa anciã era da época em que a existência se
originou. Disse: "Akin Osò! à casa de quem vai você hoje ?" Disse:
"eu ouvi rumores a respeito de todos vocês na casa de Olófin, que os
dezesseis Odù mais idosos levaram uma oferenda ao poderoso òrun sem
sucesso".
Disse: "assim seja".
Disse: "é sua vez hoje?''
Disse: "é minha vez".
Disse: "tomou alimentos
hoje?"
Respondeu ele: "eu tomei
alimentos".
Disse ela "quando você chegar a
seu sitio, diga-lhes que você não irá hoje".
Disse ela: "Esses seis centavos
que você me deu", Disse: "há três dias não tinha dinheiro para
comprar comida"
Disse: "diga-lhes que você não
ira hoje".
Disse: "quando chegar amanhã,
você não deve comer, você não deve beber antes de chegar ali".
Disse: "você deve levar a
oferenda". Disse: "todos esses que ali foram, comeram da comida da
terra, essa é a razão por que Olórun não lhes abriu a porta!"
Quando Òsetùá voltou a casa de Oba
Àjàlàiyè, todos os Odù Ifá estavam reunidos lá. Disseram: "você deve estar
pronto agora, é sua vez hoje de levar a oferenda ao òru
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Èsù respondeu: "Como! Jamais
pensei que você viria me avisar antes de partir". Disse ele: "isso
vai acabar hoje, eles lhe abrirão a porta !" Perguntou ele: "Tomou
algum alimento?" Òsetùá lhe respondeu que uma anciã lhe tinha dito na
véspera que ele não devia comer absolutamente nada. Então Òsetùá e Èsù
puseram-se a caminho. Partiram em direção aos portões do òrun.
Quando chegaram lá, as portas já se
encontravam abertas, encontraram as portas abertas. Quando levaram a oferenda a
Olódùmarè e Ele examinou. Olòdumarè disse: "Haaa! Você viu qual foi o
último dia que choveu na terra?! Eu me pergunto se o mundo não foi
completamente destruído. Que pode ser encontrado lá?" Òsetùá não podia
abrir a boca para dizer qualquer coisa. Olódùmarè lhe deu alguns
"feixes" de chuva. Reuniu, como outrora, as coisas de valor do òrun,
todas as coisas necessárias para a sobrevivência do mundo, e deu-lhas. Disse
que ele, Òsetùá, deveria retornar. Quando deixaram a morada de Olódumarè, eis
que Òsetùá perdeu um dos "feixes" de chuva. Então a chuva começou a
cair sobre a terra. Choveu, choveu, choveu, choveu.... Quando Òsetùá voltou ao
mundo, em primeiro lugar foi ver Quiabo. Quiabo tinha produzido vinte sementes.
Quiabo que não tinha nem duas folhas, um outro não tinha mesmo nenhuma folha em
seus ramos. Voltou-se em direção à casa do Quiabo escarlate, Ilá Ìròkò tinha
produzido trinta sementes. Quando chegou a casa de Yáyáá, esse havia produzido
cinquenta sementes. Foi então até à casa da palmeira de folhas exuberantes, que
se encontrava na margem do rio Awónrin Mogún. A palmeira tinha dado nascimento
a dezesseis rebentos. Depois que a palmeira deu nascimento a dezesseis rebentos
ele voltou à casa de Oba Àjàlàiyé. Àse se expandia e se estendia sobre a terra.
Sêmen convertia-se em filhos, homens em seu leito de sofrimento se levantavam,
e todo o mundo tornou-se aprazível, tornou-se poderoso. As novas colheitas eram
trazidas dos plantios. O inhame brotava, o milho amadurecia, a chuva continuava
a cair, todos os rios transbordavam, todo mundo era feliz. Quando Òsetùá
chegou, carregaram-no para montar num cavalo (signo de realeza: só os mais
poderosos podem-se permitir a criar ou montar cavalos em País Yorùbá). Estavam
mesmo a ponto de levantar o cavalo do chão para mostrar até que ponto as
pessoas estavam ricas e felizes. Estavam de tal forma contentes com ele, que o
cobriram de presentes, os que estavam em sua direita os que estavam em sua
esquerda. Começaram a saudar Òsetùá: "Você é o único que conseguiu levar a
oferenda ao òrun, a oferenda que você levou ao outro mundo era poderosa !
Disseram, "sem hesitação, rápido, aceite meu dinheiro e ajude-me a
transportar minha oferenda ao òrun! Òsetùá! Aceite rápido! Òsetùá aceite minha
oferenda!" Todos os presentes que Òsetùá recebeu, os deu todos a Èsù
Òdàrà. Quando os deu a Èsù, Èsù disse: "Como!" Há tanto tempo ele
entregava os sacrifícios, e não houve ninguém para retribuir-lhe a gentileza.
"Você Òsetùá! Todos os sacrifícios
que eles fizerem sobre a terra, se não os entregarem primeiro a você, para que
você possa trazer a mim, farei que as oferendas não sejam mais
aceitáveis". Eis a razão pela qual sempre que os Babaláwo fazem
sacrifícios, qualquer que seja o Odù Ifá que apareça e qualquer que seja a
questão, devem invocar Òsetùá para que envie as oferendas a Èsù. Porque é só de
sua mão que Èsù aceitará as oferendas para levá-las ao òrun. Porque quando Èsù
mesmo recebia os sacrifícios das pessoas da terra e os entregava no lugar onde
as oferendas são aceitas, eles não demonstravam nenhum reconhecimento pelo que
ele fazia por todos até o dia em que Òsetùá teve de carregar o sacrifício e Èsù
foi abrir o caminho apropriado para o òrun, para alcançar a morada de
Olódumàrè. Quando se abriram as portas para ele. A qualidade de gentileza que
Èsù recebeu de Òsetùá era realmente muito valiosa para ele (Èsù). Então ele e
Òsetùá decidiram combinar um acordo pelo qual todas as oferendas que deveriam
ser feitas deveriam ser-lhe enviadas por intermédio de Òsetùá. Foi assim que
Òsetùá converteu-se no entregador de oferendas para Èsù. Èsù Òdàrà, foi assim
que ele se converteu em O portador de oferendas para Olódumàrè, Èsù Òsijé-Ebó,
no poderoso òrun. É assim como este Itan (verso) Ifá explica, a respeito de Èsù
e Òsetùá.
Exu instaura o conflito entre
Iemanjá, Oiá e Oxum.
Um
dia, foram juntas ao mercado Oiá e Oxum, esposas de Xangô, e Iemanjá, esposa de
Ogum.
Exu
entrou no mercado conduzindo uma cabra.
Ele
viu que tudo estava em paz e decidiu plantar uma discórdia.
Aproximou-se
de Iemanjá, Oiá e Oxum e disse que tinha um compromisso importante com
Orunmila.
Ele deixaria a cidade e pediu a elas que vendessem sua cabra por
vinte búzios. Propôs que ficassem com a metade do lucro obtido.
Iemanjá,
Oiá e Oxum concordaram e Exu partiu.
A
cabra foi vendida por vinte búzios. Iemanjá, Oiá e Oxum puseram os dez búzios
de Exu a parte e começaram a dividir os dez búzios que lhe cabiam. Iemanjá contou
os búzios. Haviam três búzios para cada uma delas, mas sobraria um. Não era
possível dividir os dez em três partes iguais. Da mesma forma Oiá e Oxum
tentaram e não conseguiram dividir os búzios por igual. Aí as três começaram a
discutir sobre quem ficaria com a maior parte.
Iemanjá
disse: “É costume que os mais velhos fiquem com a maior porção. Portanto, eu
pegarei um búzio a mais”.
Oxum
rejeitou a proposta de Iemanjá, afirmando que o costume era que os mais novos
ficassem com a maior porção, que por isso lhe cabia.
Piá
intercedeu, dizendo que , em caso de contenda semelhante, a maior parte caberia
à do meio.
As
três não conseguiam resolver a discussão. Então elas chamaram um homem do
mercado para dividir os búzios eqüitativamente entre elas. Ele pegou os búzios
e colocou em três montes iguais. E sugeriu que o décimo búzio fosse dado a mais
velha. Mas Oiá e Oxum, que eram a segunda mais velha e a mais nova, rejeitaram
o conselho. Elas se recusaram a dar a Iemanjá a maior parte.
Pediram
a outra pessoa q eu dividisse
eqüitativamente os búzios. Ele os contou, mas não pôde dividi-los por igual.
Propôs que a parte maior fosse dado à mais nova. Iemanjá e Oiá.
Ainda
um outro homem foi solicitado a fazer a divisão. Ele contou os búzios, fez três
montes de três e pôs o búzio a mais de lado. Ele afirmou que, neste caso, o
búzio extra deveria ser dado àquela que não é nem a mais velha, nem a mais
nova. O búzio devia ser dado a Oiá. Mas Iemanjá e Oxum rejeitaram seu conselho.
Elas se recusaram a dar o búzio extra a Oiá.
Não
havia meio de resolver a divisão.
Exu
voltou ao mercado para ver como estava a discussão. Ele disse: “Onde está minha
parte?”.
Elas
deram a ele dez búzios e pediram para dividir os dez búzios delas de modo
eqüitativo.
Exu
deu três a Iemanjá, três a Oiá e tre a Oxum. O décimo búzio ele segurou.
Colocou-o
num buraco no chão e cobriu com terra.
Exu
disse que o búzio extra era para os antepassados, conforme o costume que se
seguia no Orun.
Toda
vez que alguém recebe algo de bom, deve-se lembrar dos antepassados. Dá-se uma
parte das colheitas, dos banquetes e dos sacrifícios aos Orixás, aos
antepassados. Assim também com o dinheiro. Este é o jeito como é feito no Céu.
Assim também na terra deve ser.
Quando qualquer coisa vem para alguém, deve-se
dividi-la com os antepassados. “Lembrai que não deve haver disputa pelos
búzios.”
Iemanjá,
Oiá e oxum reconheceram que Exu estava certo. E concordaram em aceitar três
búzios cada.
Todos
os que souberam do ocorrido no mercado de Oió passaram a ser mais cuidadosos
com relação aos antepassados, a eles destinando sempre uma parte importante do
que ganham com os frutos do trabalho e com os presentes da fortuna. [Lenda 24
do Livro Mitologia dos Orixás ]
Esú
torna-se o amigo predileto de Orunmila.
Como
se explica a grande amizade entre Orunmila e Exu, visto que eles são opostos em
grandes aspectos ?
Orunmila,
filho mais velho de Olorun, foi quem trouxe aos humanos o conhecimento do
destino pelos búzios. Exu, pelo contrario, sempre se esforçou para criar
mal-entendidos e rupturas, tanto aos humanos como aos Orixás. Orunmila era
calmo e Exu, quente como o fogo.
Mediante
o uso de conchas adivinhas, Orunmila revelava aos homens as intenções do
supremo deus Olorun e os significados do destino. Orunmila aplainava os
caminhos para os humanos, enquanto Exu os emboscava na estrada e fazia incertas
todas as coisas. O caráter de Orunmila era o destino, o de Exu, era o acidente.
Mesmo assim ficaram amigos íntimos.
Uma
vez, Orunmila viajou com alguns acompanhantes. Os homens de seu séqüito não
levavam nada, mas Orunmila portava uma sacola na qual guardava o tabuleiro e os
Obis que usava para ler o futuro.
Mas
na comitiva de Orunmila muitos tinham inveja dele e desejavam apoderar-se de
sua sacola de adivinhação. Um deles mostrando-se muito gentil, ofereceu-se para
carregar a sacola de Orunmila. Um outro também se dispôs à mesma tarefa e eles
discutiram sobre quem deveria carregar a tal sacola.
Até
que Orunmila encerrou o assunto dizendo: "Eu não estou cansado. Eu mesmo
carrego a sacola".
Quando
orunmila chegou em casa, refletiu sobre o incidente e quis saber quem realmente
agira como um amigo de fato. Pensou então num plano para descobrir os falsos
amigos. Enviou mensagens com a notícia de que havia morrido e escondeu-se
atrás da casa, onde não podia ser visto. E lá Orunmila esperou.
Depois
de um tempo, um de seus acompanhantes veio expressar seu pesar. O homem
lamentou o acontecido, dizendo ter sido um grande amigo de Orunmila e que
muitas vezes o ajudara com dinheiro. Disse ainda que, por gratidão, Orunmila
lhe teria deixado seus instrumentos de adivinhar.
A
esposa de Orunmila pareceu compreende-lo, mas disse que a sacola havia
desaparecido. E o homem foi embora frustrado.
Outro
homem veio chorando, com artimanha pediu a mesma coisa e também foi
embora desapontado. E assim, todos os que vieram fizeram o mesmo pedido. Até
que Exu chegou.
Exu
também lamentou profundamente a morte do suposto amigo. Mas disse que a
tristeza maior seria da esposa, que não teria mais pra quem cozinhar. Ela
concordou e perguntou se Orunmila não lhe devia nada. Exu disse que não. A
esposa de Orunmila persistiu, perguntando se Exu não queria a parafernália de
adivinhação
Exu
negou outra vez. Aí Orunmila entrou na sala, dizendo: "Exu, tu és sim meu
verdadeiro amigo!".
Depois
disso nunca teve amigos tão íntimos, tão íntimos como Exu e Orunmila. [
lenda 27 do Livro Mitologia dos Orixás]
Exu
leva aos homens o oráculo de Ifá
Em
épocas remotas os deuses passaram fome. Às vezes, por longos períodos, eles não
recebiam bastante comida de seus filhos que viviam na Terra.
Os
deuses cada vez mais se indispunham uns com os outros e lutavam entre si
guerras assombrosas. Os descendentes dos deuses não pensavam mais neles e os
deuses se perguntavam o que poderiam fazer. Como ser novamente alimentados
pelos homens ? Os homens não faziam mais oferendas e os deuses tinham
fome. Sem a proteção dos deuses, a desgraça tinha se abatido sobre a Terra e os
homens viviam doentes, pobres, infelizes.
Um
dia Exu pegou a estrada e foi em busca de solução. Exu foi até Iemanjá em busca
de algo que pudesse recuperar a boa vontade dos homens. Iemanjá lhe disse:
"Nada conseguirás. Xapanã já tentou afligir os homens com doenças, mas
eles não vieram lhe oferecer sacrifícios".
Iemanjá
disse: "Exu matará todos os homens, mas eles não lhe darão o que comer.
Xangô já lançou muitos raios e já matou muitos homens, mas eles nem se
preocupam com ele. Então é melhor que procures solução em outra direção. Os
homens não tem medo de morrer. Em vez de ameaçá-los com a morte, mostra a eles
alguma coisa que seja tão boa que eles sintam vontade de tê-la. E que, para
tanto, desejem continuar vivos".
Exu
retornou o seu caminho e foi procurar Orungã.
Orungã
lhe disse: "Eu sei por que vieste. Os dezesseis deuses tem fome. É preciso
dar aos homens alguma coisa de que eles gostem, alguma coisa que os satisfaça..
Eu conheço algo que pode fazer isso. É uma grande coisa que é feita com
dezesseis caroços de dendê. Arranja os cocos da palmeira e entenda seu
significado. Assim poderás conquistar os homens".
Exu
foi ao local onde havia palmeiras e conseguiu ganhar dos macacos dezesseis
cocos. Exu pensou e pensou, mas não atinava no que fazer com eles. Os
macacos então lhe disseram: "Exu, não sabes o que fazer com os
dezesseis cocos de palmeira? Vai andando pelo mundo e em cada lugar pergunta o
que significam esses cocos de palmeira. Deves ir a dezesseis lugares para saber
o que significam esses cocos de palmeira. Em cada um desses lugares recolheras
dezesseis odus. Recolherás dezesseis histórias, dezesseis oráculos. Cada
história tem a sua sabedorias, conselhos que podem ajudar os homens. Vai
juntando os odus e ao final de um ano terás aprendido o suficiente. Aprenderás
dezesseis vezes dezesseis odus. Então volta para onde moram os deuses. Ensina
aos homens o que terás aprendido e os homens irão cuidar de Exu de novo".
Exu
fez o que lhe foi dito e retornou ao Orun, o Céu dos Orixás. Exu mostrou
aos deuses os odus que havia aprendido e os deuses disseram: "Isso é muito
bom".
Os
deuses, então, ensinaram o novo saber aos seus descendentes, os homens. Os
homens então puderam saber todos os dias os desígnios dos deuses e os
acontecimentos do porvir. Quando jogavam os dezesseis cocos de dendê e
interpretavam o odu que eles indicavam, sabiam da grande quantidade de mal que
havia no futuro. Eles aprenderam a fazer sacrifícios aos Orixás para
afastar os males que os ameaçavam. Eles recomeçavam a sacrificar animais e a
cozinhar suas carnes para os deuses. Os Orixás estavam satisfeitos e felizes.
Foi assim que Exu trouxe aos homens o If'á. [Lenda 28 do livro Mitologia dos
Orixás]
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